O QUE ESTAMOS BUSCANDO: O MISTÉRIO DO SER ESPIRITUAL
O que estamos buscando? Qual a orientação que queremos dar em
nossas vidas? Certamente, não queremos apenas "quantidade de vida", ou
mesmo "vida incompleta". Almejamos algo mais. Algo que possamos
desfrutar completamente em vida. Ou seja, algo que possua valor, peso,
sentido, dimensão e, portanto, QUALIDADE. Queremos encontrar a essência das coisas da vida.
Queremos encontrar sem saber o que, como e onde. Tateamos no
escuro da percepção na busca da essência das coisas da vida. Por isso,
ansiamos em encontrar em cada coisa esse ponto, esse centro essencial.
Sabemos por experiências, que a vida só tem sentido quando vislumbramos
encontrar uma referência dessa essência fundamental. A essência que nos
anima. Todo nosso esforço, todas as nossas descobertas têm por
intenção, mesmo indiretamente, a reorientação de nossas visões para o
centro essencial da vida. É a vida e a sua existência a questão chave.
Viver por viver não tem valor, não tem significado algum. Precisamos
experimentar o belo, ao agradável, o saboroso, o extasiante, o
apaixonante, o romântico, o sutil, o amoroso, o confiável, e assim por
diante. Essa é a busca que consciente ou inconscientemente realizamos
todos nós.
É essa experiência tateante que nos empurra
para frente. Inevitavelmente caímos, mas logo levantamos. Sofremos e
desejamos. Matamos e morremos. Mas, o grande sonho é a esperança de
encontrar, ou melhor, de experimentar a grandeza de algo superior a nós
mesmos (em nós mesmos).
Daí o surgimento da crise. Mas,
também como consequência o conflito e a oportunidade de encontrar a
trilha da Verdade maior: "Vocês conhecerão a Verdade. A Verdade vos
libertará". É preciso continuar. Desistir nunca. Assim, com nossa visão
obscurecida, caímos e mergulhamos num oceano de conflitos, guerras,
desajustes e desequilíbrios. E poucos são os "buscadores" que escapam da
força magnetizadora do mundo das formas. De "buscadores" nos tornamos
vítimas. Nos misturamos ao mundo que no início queríamos desvendar. É o
paradoxo do caminho do homem em busca da essência das coisas.
Assim, mesmo inconsciente, desejamos encontrar uma referência do
caminho certo. Em dado momento nos perguntamos: qual é o caminho
verdadeiro? Será que existem vários caminhos? Ou, será que existe apenas
um único caminho? Buscamos aqui e ali essas respostas tanto na ciência
quanto na religião. Tentamos decifrar, interpretar e traduzir os
caminhos traçados pelos grandes mestres que passaram pela Terra. Mas,
isso é tudo em vão. Não encontramos, de pronto, a resposta adequada.
Várias são as referências, os marcos deixados por aqueles que
conseguiram caminhar. Mas, tudo em vão.
Existe um mistério
que permeia a nossa busca da essência das coisas. Os marcos deixados
nos apontam em direção à perfeição e à beleza. De forma que, ficamos na
intenção, no desejo de querer "uma estrela no céu, enquanto nossos pés
estão presos na Terra".
Romper com os grilhões que nos
aprisiona ao "chão da Terra" é o desafio de sermos totalmente livres
para vivenciarmos a "estrela no céu". De maneira que, estamos sempre
conformados com esse destino que nós mesmos criamos. É preciso ganhar
asas e voar para pontos mais altos do nosso "céu-ser". Mas como fazer
isso? Não sabemos, enquanto sociedade, como fazer essa tarefa suprema.
Ao longo de vários séculos acumulamos muito conhecimento. Hoje
conhecemos muito. Muito mesmo. No entanto, paradoxalmente, não sabemos o
que nos é de fato essencial para viver. Esse é o grande mistério: nem
muito, nem pouco, nem mais e nem menos. Mas o essencial. O essencial é
tudo que precisamos.
O essencial torna-se o que nos é
oculto sempre. Cabe aqui uma pergunta: o que é mesmo "essencial"? Será
que é essencial ter? Ou será que é ser? É essencial adquirir bens
materiais? Ou será que os bens materiais são necessários? O essencial é
uma questão de quantidade ou de qualidade? Possuir isso ou aquilo é
essencial ou é útil? Utilidade e essencialidade são as mesmas coisas?
O mundo que criamos é centrado na utilidade ou essencialidade das
coisas? Creio eu, que o mundo moderno gira sob o eixo da utilidade.
Queremos as coisas que nos são uteis. Não podemos, ou melhor, não
conseguimos trocar o que é essencial. Trocamos o que é útil entre nós.
Não podemos trocar o ar, o vento, o clima, o chão, etc. Trocamos o que é
útil para o bem comum de um grupo, sociedade, tribo ou clã. É
importante analisarmos essa questão de forma mais profunda.
O essencial já existe e sempre existiu antes das necessidades humanas.
O essencial não pode ser criado pelo homem. O homem cria e projeta as
coisas uteis para si. A vida é essencial. Não podemos trocar a vida. Não
podemos vender a vida. Podemos trocar sapato por dinheiro. Podemos
vender roupas, alimentos, etc. O essencial não está associado a
"quantidade de", mas a "qualidade de" vida. É claro, que existe um valor
essencial na própria quantidade. Mas, não é a quantidade que determina o
valor essencial. Por exemplo, as vezes faz-se necessário uma quantidade
de água, ou seja, um valor essencial de volume de água para saciar
nossa sede. O essencial é a nossa satisfação existencial.
Se não percebemos isso continuaremos confundindo as coisas.
Continuaremos valorizando a utilidade das coisas e não a
essencialidade. Essa distorção vem causando sérios danos e desajustes no
sistema energético humano. Com essa visão apurada podemos melhor
compreender os desvios. Por exemplo, o trabalho social numa empresa é
útil ou essencial? Certamente que é útil para a troca com dinheiro mas
não é essencial. Essencial é o trabalho ou esforço individual que cada
um precisa realizar em si mesmo a fim de alcançar o equilíbrio
ontológico/existencial. Podemos ver, então, que não podemos sobreviver
apenas com o trabalho útil. O trabalho útil não consegue por si mesmo
nos manter vivos com saúde. Se nos esforçamos continuamente no trabalho
útil geramos "stress", desequilíbrio e portanto, doenças. E
consequentemente sofrimento e perda do valor essencial da vida.
O trabalho útil precisa estar subordinado ao trabalho essencial.
Ou seja, se estamos equilibrado em nossa estrutura interior, podemos
então, utilizar melhor nossas capacidades físicas. A produção essencial
não pode ser medida. Ela apenas deve ser incentivada. A produção oriunda
do trabalho essencial gera bens não-econômicos: paz, equilíbrio,
harmonia, felicidade, alegria, bem-aventurança, etc. Essas coisas são
essenciais para todos nós. Sem isso, a vida perde total sentido de
existência.
O que aconteceu para que nos desviássemos
tanto desse trabalho essencial? Creio eu, que foi a supervalorização do
trabalho útil em detrimento do outro. Invertemos a natureza das coisas.
Forçamos um caminho. Nos iludimos com as nossas descobertas. O homem
moderno, está adoecendo e perdendo o controle de suas próprias energias
vitais. O aumento do número de hospitais, médicos, psicólogos indica não
a evolução de uma sociedade, mas ao contrário do que pensamos , indica
um grande problema nos desequilíbrios de valores de utilidade das
coisas.
A nossa psique desaprendeu a exercitar os valores
essenciais. Vivemos submersos num mundo de valores utilitaristas.
Valores de consumo de utilidades. A natureza é governada por princípios
essenciais, valores naturais. Não podemos normatizar um valor natural.
Podemos acordar sobre um valor artificial ou virtual. A bondade é um
valor essencial ou natural. E sempre existiu em qualquer civilização
humana. Da mesma forma, a fé, a fraternidade, a amizade, o perdão, etc.
O trabalho essencial é hierarquicamente superior ao trabalho útil.
O caminho essencial é estreito e sua porta pequena. Retornar a trilha
do trabalho e da produção essencial é a grande conquista de que
precisamos para efetivamente sabermos quem nós somos. Ser essencial. E
não apenas ser útil: médico, engenheiro, motorista, enfermeiro, etc. O
essencial é perene. O útil é provisório, temporal. Não conseguiremos
mudar a rota de conflitos se não mudarmos a busca. Do útil para o
essencial. O essencial requer renúncia e restrição. O mestre Einstein,
foi um dos raros seres que vislumbraram isso. Vejamos, o que ele disse
(Como Vejo o Mundo, Nova Fronteira):
"Se quisermos uma vida livre e feliz, será absolutamente necessário haver renúncia e restrição" p.64
E o mestre Jesus Cristo também chegou a dizer:
"É mais fácil um camelo atravessar o buraco de uma agulha do que um homem rico ir para o Reino do Céu"
É preciso mudar a rota da busca. Da utiladade da qualidade para a
essencialidade da qualidade. Essa mudança deve ocorrer dentro de cada
indivíduo. É no homem e não nos produtos físicos que a qualidade deve
se desenvolver. É claro, que como resposta da visão interior podemos
criar produtos mais uteis para o nosso benefício. Mas, a recíproca não é
verdadeira, ou seja, a qualidade dos produtos não produzirá no homem a
mudança de rota. Produzirá mais valores utilitaristas. Reforçará o
caminho da utilidade. E de seus valores de uso e troca.
Seguindo dessa forma o homem se afastará cada vez mais daquilo que ele
mais quer encontrar: a qualidade de vida total, realizada na
vivencialidade do Amor Cósmico Universal. Esse afastamento produzirá no
homem moderno, um aumento de tensão interior. Essa tensão em processo de
crescimento conduzirá o homem a utilizar seus valores utilitaristas na
projeção, na explosão psíquica inevitável. O homem poderá se
autodestruir. A busca do Amor é a meta. É imprescindível para o
desenvolvimento equilibrado de qualquer sociedade humana. Sem Amor, a
vida é vazia, oca, sem valor, sem sentido verdadeiro e sem essência.
OUT/1992